quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Animais que falam

Colóquio em Palomas

                                                  Juremir Machado
Falam, sim. Em Palomas, os animais falam. Acho que tinha esquecido de dizer isso. Aliás, são os bichos que mais falam. Outro dia, num pastinho tranquilo, duas vacas, uma holandesa (Mell) e uma da raça Charolês (Fannie), batiam um papo-cabeça ao cair da noite. Falavam de tudo um pouco, dos peitos lendários da Fafá de Belém, do uso de silicone nos seios, da baixaria nas novelas de TV, de reforma agrária, das tetas de Brasília, do mamador José Sarney e até do recente sumiço do Belchior.

- Tem uma coisa que me incomoda na reforma agrária.
- O que, Mell?
 - Nunca fomos consultadas. Logos nós que conhecemos estes campos como o céu das nossas bocas. Já lambi cada palmo deste chão. É um desrespeito não pedirem a nossa opinião.
- Você acha que o MST invade ou ocupa as terras?
- Língua no Brasil anda pelas caronas. Detesto, por exemplo, quando alguém diz "no pega pra capar". Falam assim por não ser nos machos deles que isso estoura.
- É, Mell, eu fico puta quando falam em mamar nas tetas da vaca estatal e outras coisas. São uns tarados. Passam o tempo inteiro querendo nos chupar. O Sarney...
- É o maior mamador do país. Mama mais do que uma dúzia de terneiros famintos. E ainda tem aquele bigode nojento.
- Esse aí mama desde a época em que a minha avó era guriazinha e sonhava em ter as tetas da Fafá de Belém.
- Falando nisso, Fannie, você é a favor de silicone para vacas? Eu sou holandesa, estou bem contente com as minhas tetas, mas vejo algumas meninas por aí tão fraquinhas.
- Ah, eu sou! Não tenho preconceitos. Por mim, fazia era plástica para ficar com o pescoço da Ana Maria Braga. É só o banco liberar um dinheiro que vou convencer meu dono a me recauchutar para o próximo concurso.
- E a Gisele grávida, hein? Ela é o máximo.
- Vai ficar com um ubre maior do que o meu.
- Não seja vulgar.
- Ué. Estou elogiando. Pra mim, ela é uma vaca profana.
- Ai, o Caetano. Adoro aquele ar de bezerro desmamado dele. Que homem. Tão sensível, criativo, metrossexual.
- Sou mais o Chico. Aliás, Chico é Chico.
- Eu gostava era da Marieta. Que raça. Na nossa área, você prefere o Stédile, o Cassel ou o Nestor Hein?
- Ah, nenhum deles, se bem que o Nestor é um gato, quer dizer, um novilho e tanto. Prefiro o Alexandre Motta.
- O gordinho da Record?
- Isso mesmo. Adoro quando ele grita "balança". Mexe comigo. Fico como se estivesse num baile funk.
- Minha mãe se sentia assim quando ouvia o Belchior.
- Acharam o Belchior no Uruguai, né? Eu sei o que ele foi fazer lá. Foi trabalhar no filme "O Banheiro do Papa". O ator é a cara e o bigode dele. Sou mais Vitor e Leo.
- Não posso perder a novela. Está ficando boa.
- Tem muita baixaria. É só mulher de teta de fora.
- Tudo siliconada. Eu sou cem por cento natural. Mas quem é você para reclamar disso? Anda sempre balançando as tetas por aí sem o menor pudor. Adora uma passarela. Pensa que eu não vi o teu assanhamento na Expointer?
- Por que a gente não desfila no Vinte de Setembro?
- Com aqueles vestidos? Parece burca. Tô fora.
juremir@correiodopovo.com.br

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